O inferno astral de Doria
14/06/2017
Raphael Martins
Em busca de agenda positiva, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), chamou jornalistas ao Detran para acompanhar seu curso de reciclagem. Sua habilitação foi recentemente suspensa por excesso de multas. Não foram poucas as piadas com o slogan do prefeito, o “Acelera SP”. “Fui aprovado. Sem nenhum privilégio, fiz exatamente o que qualquer outro cidadão tem que fazer”, disse em vídeo no Facebook. “Parabéns, prefeito, pela atitude! Não ficou se esquivando do assunto e nem fugiu”, disse um eleitor. As reações, porém, não foram só confete como antes. Outros aproveitaram o momento para cobrar. “Querido prefeito, acabe com os radares pegadinhas que ainda existem em São Paulo. Já está difícil sobreviver com o salário que recebo, e ainda ter que pagar multa”.
O clima de festa começa a mudar em relação aos 100 primeiros dias de mandato do prefeito, pelo menos em parte da população. Na ciência política, este é o período de paciência que o eleitor tem com o escolhido, até que passe a cobrar por resultados. Na última pesquisa Datafolha, realizada no último dia 5, o grupo de bom e ótimo se manteve (de 44% para 41% entre fevereiro e junho), mas 74% dos ouvidos consideram que ele fez menos do que poderia pelos seus bairros e 53%, pela cidade. Há um mês, o jornal Folha de S. Paulo captou deficiências no programa Cidade Linda por redução no contingente de servidores em pelo menos 11 das 33 prefeituras regionais. Somam-se a isso uma porção de polêmicas.
Para cientistas políticos consultados por EXAME Hoje, este é apenas um primeiro momento do reflexo das ações. Políticas públicas são geralmente avaliadas em dois momentos, sendo o primeiro imediatamente depois da aplicação e algum tempo depois, quando surgem os efeitos. Esta segunda etapa se aproxima. “O prefeito Doria começou com imagem extremamente positiva, o que, às vezes, encobre erros. Não necessariamente ele vai colapsar, mas pode perder respaldo, principalmente o eleitor que é formador de opinião”, afirma José Álvaro Moisés, professor do departamento de Ciência Política e diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP.
Doria também vem lidando com desgaste de seu secretariado. O secretário de Cultura, André Sturm, foi flagrado na segunda-feira em vídeo em discussão aberta com Milton Flávio, secretário de Relações Governamentais. Flávio convocou o colega para uma reunião na Prefeitura e acabou cruzando com membros de organizações que protestam contra Sturm e invadiram a Secretaria no início do mês. “Para de me vender Milton. Para de me vender para essa gente que fica me agredindo e me xingando. Fiz papel de palhaço. Molecagem”, esbravejou Sturm.
O “esquentado” secretário — que ameaçou “quebrar a cara” de um agente cultural — foi um dos pivôs nesta semana da acusação mais séria nesses seis primeiros meses de mandato. Documentos obtidos pela rádio CBN indicam que a equipe do prefeito agiu para encaminhar a vitória da Ambev no edital de chamamento do patrocínio do carnaval de rua de São Paulo. A agência de eventos Dream Factory foi orientada pelo chefe de gabinete da Secretaria de Cultura da capital a inflar termos da proposta para justificar a vitória contra as outras empresas, que acabaram impugnadas do processo. O estabelecido era que venceria a proposta com maior gasto em “itens de interesse público”, caso de aportes para a estrutura de segurança e ambulâncias, além de itens para foliões, como banheiros químicos.
Segundo a reportagem, a Dream Factory ofereceu 15 milhões de reais, sendo 2,6 milhões de reais nas especificações pedidas. A SRCOM, que representava a concorrente Heineken, ofereceu 5,1 milhões dos 8,5 milhões de reais para o mesmo destino. A Dream Factory foi instruída então a elevar os valores mais de 20 dias depois da abertura do vencedor da concorrência. O caso é investigado pelo Ministério Público desde o dia 29 de maio.
Como é de costume da gestão do tucano, a resposta veio com rapidez e dureza. Foi convocada uma coletiva de imprensa para esclarecimentos. Diz a gestão que a reportagem da CBN “se esforça para fazer parecer haver irregularidade onde houve esforço do poder público” em realizar melhorias no carnaval. Justificou que o contrato permitiu um evento de público recorde — 3,6 milhões de paulistanos frequentaram os blocos de rua pelas ruas da cidade — sem gasto público. Em 2016, diz a Prefeitura, foram investidos 10 milhões de reais do caixa.
Em nota, a prefeitura diz que a Dream Factory foi apenas chamada a esclarecer sua proposta e que o documento da SRCOM foi julgado “insatisfatório”. “A SRCOM não poderia oferecer 15 milhões de reais em serviços. Se fosse mantida a decisão de dar vitória à SRCOM, a Prefeitura teria, portanto, de investir pelo menos 10 milhões de reais no Carnaval”, diz o texto. A prefeitura tenta também desacreditar as fontes da reportagem, dizendo se tratarem de “especialistas”, com uso pejorativo das aspas, e diz ser salutar a investigação a respeito do patrocínio, pois “assim, ficará comprovado ao final que foi cumprida a lei e que a ação da administração municipal beneficiou a população”.
Este é apenas um dos casos recentes de desgaste que o prefeito teve que enfrentar no passado recente. Ainda na esteira das relações entre o poder público e privado, pauta de extrema delicadeza em tempos de Operação Lava-Jato, também a rádio CBN fez uma denúncia na semana passada que remédios doados à Prefeitura de São Paulo acumulavam-se nas prateleiras de postos de saúde com a data de vencimento próxima. Segundo a reportagem, as empresas tiveram cerca de 66 milhões de reais em isenção de ICMS em troca das doações e se livraram dos custos do descarte dos produtos — cerca de 20 reais para cada quilo a ser incinerado. É também da área de saúde que sai um dos principais apoiadores de Doria, o empresário Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma. Foi ele o doador de banners de propaganda do programa Cidade Linda em jogos da seleção brasileira em março. O prefeito sempre garantiu que todas as ações semelhantes não têm contrapartida.
Outro momento de intenso debate: a série de ações na Cracolândia, criticada com ênfase por entidades de assistência social e autoridades do setor de saúde. Em uma megaoperação com a Polícia Militar, a equipe do prefeito coordenou a retirada à base de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo de usuários de droga da região da Rua Helvétia com a Alameda Dino Bueno, no centro. Doria apressou-se em dizer que a operação de combate ao tráfico havia “acabado” com a Cracolândia. Dias depois, contudo, usuários passaram a ocupar nos mesmos moldes a Praça Princesa Isabel, há 400 metros de distância. Apesar das críticas pela operação atrapalhada, Doria não recuou e agora faz ações com a Guarda Civil Metropolitana também na região, removendo equipamentos para montagem de barracas.
Com todos os problemas, como a popularidade do prefeito se manteve? A mão de ferro de Doria na Cracolândia foi bem aceita. A pesquisa Datafolha mostra que 60% dos entrevistados acreditam que Doria foi o principal responsável pela operação na Cracolândia — e não o governador Geraldo Alckmin — e 48% aprovaram sua atuação. No total, 59% dos paulistanos concordam com a ação, apesar das críticas e dos métodos polêmicos. Pela lógica dos analistas consultados pela reportagem, a ação é mal vista especialmente entre moradores da região e partes diretamente envolvidas. Quem está distante do problema, tende a se sentir satisfeito com o “combate”.
“Espalhar a Cracolândia por todo o centro é a melhor iniciativa? Anda-se mais tranquilo no centro ou o problema se espalhou pelos bairros? Reduziu o número de usuários?”, diz o cientista político e professor do Insper Carlos Melo. “A realidade vai mostrar, mas ainda não houve uma acomodação dessa política que mostre o resultado. É aí que a repercussão das medidas ficam mais claras.”
Pode levar mais ou menos tempo, mas corrigir esses erros a tempo é determinante para que o prefeito consiga manter altos índices de aprovação. Um exemplo emblemático é o da ex-presidente Dilma Rousseff. Eleita com votação apertada em 2014, levou pouco tempo até que se percebesse os efeitos da crise econômica e a virada de agenda, criando uma imagem negativa até entre os próprios eleitores.
“Um sério problema da gestão até aqui é que ela não tem sido capaz de voltar atrás quando se verifica que cometeu erros, como foi com aumento de velocidade nas marginais e deve ser na ação na Cracolândia. Os políticos têm que pedir desculpas quando erram e explicar como vão corrigir a ação”, diz José Álvaro Moisés, da USP.
Na reunião da Executiva do PSDB na segunda-feira, Doria sentou-se à mesa de líderes do partido. Articulou a aliança com o PMDB e preocupou-se em atacar o PT. Ventila-se o tempo todo que se trata de um presidenciável para 2018. Ainda que a narrativa vendida pelo prefeito seja a do “João Trabalhador”, erros na gestão da cidade podem botar a perder voos futuros. As próximas pesquisas trarão com mais clareza a eficácia do gestor.
* Publicado no aplicativo EXAME Hoje da Revista EXAME – Editora Abril