EXAME Hoje | No PSDB, procura-se um candidato

No PSDB, procura-se um candidato
6/05/2017

Raphael Martins

Que a Operação Lava-Jato será decisiva nas eleições presidenciais de 2018 todo mundo sabe desde que as primeiras equipes da Polícia Federal foram às ruas. Mas poucos poderiam imaginar o cenário em que o Brasil se encontra três anos e 40 fases depois. As pancadas deixaram de ser exclusividade do PT, PP e alas do PMDB. E mais, em uma daquelas reviravoltas históricas, o PSDB, principal antagonista do partido que detinha o poder na época dos escândalos, assistiu suas lideranças murcharem ao entrarem na lista, mergulhando na opinião popular.

A prova mais recente foi dada no último dia 30 de abril, quando foi divulgada a mais recente pesquisa Datafolha de intenção de voto para presidente. Segundo colocado nas urnas em 2014, Aécio Neves apareceu com 8%. Em dezembro de 2015, quando seu nome ainda não aparecia em cinco inquéritos provenientes das delações de executivos da Odebrecht, eram 26%. O mineiro era líder nos cenários apresentados pelo instituto, à frente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tinha 20%. Não bastasse a queda de Aécio, o petista lidera as intenções de voto desde abril de 2016, com tendência de alta.

Na última edição, Lula registrou 30% das preferências. A situação de tucanos não melhora ao trocar candidatos. Substituindo Aécio pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Lula tem 30% contra 6%. O tucano é o quarto colocado, atrás da ex-senadora e sempre presidenciável Marina Silva (Rede-AP) e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), empatado com Ciro Gomes (PDT-CE). O senador José Serra (SP) é carta fora do baralho, tanto pela presença na lista de Janot como por seu estado de saúde — a persistente dor nas costas que lhe fez pedir demissão do Itamaraty atrapalharia também de acompanhar o ritmo de uma campanha presidencial. Nem mesmo o novo queridinho do tucanato, o prefeito de São Paulo, João Doria (SP), estremece a disputa. Tem 9%, mais um quarto lugar.

Para entender o limbo em que se encontra o partido, é preciso considerar alguns pontos levantados por cientistas políticos e membros do PSDB a EXAME Hoje. A Lava-Jato, obviamente, é o primeiro e mais importante deles. A pulverização de políticos das mais variadas escalas envolvidos no esquema gerou na população um sentimento de desesperança. A suspeita de envolvimento de seus principais caciques no esquema tira o capital político que a legenda tinha em 2014. Como estão todos na mesma lama, fica mais difícil para o PSDB consolidar o discurso de que o PT e seus aliados são piores.

A semana que se inicia deve ser determinante. O ex-presidente Lula depõe pela primeira vez ao vivo ao juiz federal Sergio Moro, na quarta-feira 10. A audiência será esclarecedora em analisar qual a profundidade das provas contra o petista e montar uma estratégia para arrefecer a escalada do ex-presidente. Os tucanos, em público, fazem-se de despreocupados. “As responsabilidades estão sendo apuradas. Nossa preocupação agora é restabelecer crédito, gerar renda e empregos”, afirma o líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP). “Não estamos preocupados por ora com a pesquisa. O Lula está em campanha desde que nasceu e ainda não tem adversário”.

O problema é que fica difícil ignorar a concorrência quando seus aliados não inspiram grande confiança. Um segundo ponto dos dilemas do partido é justamente o fato de ter se associado ao governo Michel Temer, que até o momento, coleciona desafetos e rejeição popular. Ainda segundo o Datafolha, 71% dos brasileiros são contra a reforma da Previdência. A participação ativa em ajustes impopulares associa o partido a uma forte agenda negativa. Como a economia do país segue sem responder, a compensação positiva ainda não veio. Mas continua a ser a grande esperança. “A nossa estratégia é reforma, reforma e reforma. Os políticos estão se convencendo de que sem a reforma é muito pior”, diz o ex-senador tucano José Aníbal. “Havendo melhora da economia, a racionalidade do processo volta. Lula não passará de ser apenas o candidato do atraso e desesperança”.

Ainda que o governo recupere parte da popularidade, ainda haverá preocupação de que o PMDB seja considerado capitão da recuperação e gere concorrência. Para analistas, porém, a velocidade de tramitação e os efeitos imediatos podem não ser suficientes para criar tal virada de jogo. “Eventualmente, não será crescimento de magnitude para reverter o mal-estar a tempo. A eleição, assim, não vai ser definida só pela economia. Não há uma ‘bala de prata’ como foi o Plano Real”, afirma Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria. “Hoje, com os esquemas de corrupção, há uma crise muito mais forte de legitimidade dos partidos tradicionais que será importante para a decisão do voto”.

Por mais que a crise partidária seja séria, o establishment ainda segue firme. Nas eleições de 2016, mesmo com dois anos de Lava-Jato nas ruas, a parcela de 60% de prefeituras perdidas pelo PT foi ocupada em sua maioria por grandes partidos, como PMDB, PSDB e PSD. Outro ponto: a força da máquina partidária pode colocar a intensa rejeição de políticos dos grandes partidos em segundo plano. Quem tem mais prefeitos, vereadores e deputados faz campanha mais próximo do eleitorado e tem mais tempo de TV. É um poder de fogo decisivo.

Para Lucas de Aragão, analista político e sócio da consultoria Arko Advice, por mais que haja rejeição à política, os novos partidos não se beneficiaram disso em 2016, a exemplo do Partido Novo e a Rede Sustentabilidade, que não tiveram grandes resultados. “Veja o que aconteceu no Rio. Em um segundo turno, vence o que tem menor bagagem. Alguém leva, não necessariamente alguém adorado”, diz.

Os tucanos sabem disso, por isso cozinham a indicação em banho-maria. A avaliação geral é que não há mais tempo de melhorar os quadros. A análise dos nomes, portanto, deve ser pragmática: o mais limpo na Lava-Jato e com capacidade de crescimento na campanha será o escolhido.

Lula — por mais danificada que esteja sua imagem — com rejeição no Datafolha de 45% dos entrevistados, mostra que tem controle da esquerda. No oposto extremo, de direita, cresce a figura de Bolsonaro. Há um espaço enorme a ser ocupado no centro. Por isso, mesmo Alckmin (rejeitado por 28%) e Aécio (por 44%) não são descartados e podem se recuperar. Segundo analistas, porém, a preferência deve ser por um nome novo, a exemplo do centrista Emmanuel Macron, que deve ser eleito presidente da França neste domingo contra a extremista Marine Le Pen.

Se este for o caminho escolhido, os tucanos têm um trunfo na manga. “No momento, o Doria é o que mais se encaixa nessas condições. É, por enquanto, o único outsider com estrutura partidária”, diz Aragão. Problema? O prefeito de São Paulo ainda é desconhecido nacionalmente. A vantagem é ser rejeitado por 16%, o menor entre os cogitados tucanos. Há, porém, quem torça o nariz de início. “Quem é Doria? O que ele fez? Até agora foi puro marketing. A cidade está abandonada como antes, ruas com buracos e parques com mato alto. Foram quatro meses de mandato, não há nada estruturante”, diz um alto tucano de São Paulo.

O PSDB tem ainda um ano para a escolha de seu candidato, em um contexto que não se sabe como estará a política, como estará a economia ou quem vai estar preso ou solto. Para o partido, nunca pareceu tão fácil, mas ao mesmo tempo tão difícil recuperar a principal cadeira do Palácio do Planalto.

* Publicado no aplicativo EXAME Hoje da Revista EXAME – Editora Abril

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