EXAME Hoje | Impeachment: O discurso em cinco tópicos

O discurso em cinco tópicos
29/08/2016

Raphael Martins

A presidente afastada Dilma Rousseff começou sua defesa no Senado pouco antes das 10h e falou por cerca de 40 minutos. Dilma foi dura, se emocionou, insistiu nos argumentos amplamente repetidos ao longo dos últimos meses. O objetivo, obviamente, é conquistar votos decisivos para sua permanência – mas também defender sua biografia. EXAME Hoje elencou cinco tópicos explicitam a estratégia adotada pela petista na manhã desta segunda-feira.

1- Não baixou o tom – e falou em golpe
Não foi desta vez que Dilma Rousseff amenizou o tom. Em seu último discurso de defesa, a presidente afastada não deu afago aos julgadores e chamou novamente o processo de impeachment de golpe, atacando as “frágeis bases jurídicas” que embasam o pedido. “São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição. Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador”, afirmou Dilma. “Ritos e prazos foram respeitados, mas a forma não basta. É preciso que o conteúdo de uma sentença seja justo e jamais haverá justiça na minha condenação”. O mea culpa esteve presente de forma discreta. A petista disse que sofreu grandes críticas nesse período de impeachment e as acolhia com humildade, mas aproveitou para atacar Michel Temer (PMDB). “Tenho defeitos e cometo erros. Mas entre meus defeitos não está deslealdade e covardia. Não traio os que lutam ao meu lado.”

2- Disse que não é de desisitir (e falou em tortura)
Dilma Rousseff lembrou mais uma vez sua militância na época da ditadura militar. Desta vez, para justificar a obstinação em se manter no cargo. Afirmou que amargou a tortura, viu companheiros serem “violentados e assassinados” e recebeu o peso da injustiça em seus ombros. “Lutei por uma sociedade livre de preconceitos e discriminações. Lutei por um Brasil soberano, mais igual e para que não houvesse injustiça”, afirmou. “Não é aos quase 70 anos de idade, depois de ser mãe e avó, que abdicaria dos princípios que sempre me guiaram”. Adiante, no discurso, Dilma chorou ao citar também o câncer. “Hoje só temo a morte da democracia, pela qual qual muitos de nós lutamos com o maior dos esforços. Não nutro rancor pelos que votaram pela minha destituição”.

3- Afirmou que a crise foi criada (ou agravada) pela oposição
A presidente afastada é acusada pelos oposicionistas de assinar decretos de crédito suplementar que aprofundaram a crise no país, por mascarar resultados. Dilma afirma, porém, que em 2015 o país teve expressiva queda de receita, além do maior contingenciamento “de nossa história”. “Sem os decretos cortaríamos 96% do total de recursos disponíveis para despesas da União. Ministérios seriam paralisados, universidades fechariam suas portas. O ano teria acabado em junho”, disse. “Acusadores tentam atribuir aos decretos nossos problemas fiscais. Ignoram que os resultados são consequência da desaceleração econômica e não sua causa”. A presidente afastada colocou também na conta da oposição o aprofundamento da crise, a quem ela atribui uma articulação para desgastar o governo, em política de “quanto pior, melhor”. “As eleições foram um rude golpe à elite conservadora. Queriam o poder a qualquer preço e tudo fizeram para desestabilizar a mim e meu governo.”
“Encontraram na figura do ex-presidente da Câmara [Eduardo Cunha], o vértice de sua aliança golpista, com apoio escancarado de setores da mídia para desconstrução do governo”, afirma. “Não pratiquei ato ilícito. Está provado que não agi dolosamente. Não houve nenhuma lesão ao erário ou patrimônio público. Essa é fragilidade das acusações a mim dirigida”.

4- Falou para a biografia
A petista também jogou com a narrativa histórica. Citou perseguição a Getúlio Vargas (“implacável perseguição que o levou ao suicídio”), Juscelino Kubitschek (“vítima de constantes e fracassadas tentativas de golpe”) e João Goulart (“defensor da democracia, mas deposto pelo golpe militar”) como consequências de defesa dos direitos sociais contra elites.
Para ela, ao serem novamente contrariados pelas urnas, os interesses dessa mesma elite colocam o Brasil em risco de “ruptura democrática”. Dilma diz que as provas deixam clara que as acusações são pretextos embasados por “frágil retórica jurídica”, que não poderia dar seguimento ao processo de impeachment. “Não é legítimo afastar chefe de estado e governo por não concordarem com o conjunto da obra”.

5- Mirou os eleitores
Ao citar que o governo Temer pretende inserir um teto aos gastos públicos, Dilma sinaliza ao seu eleitorado que sua saída do poder pode representar o congelamento por 20 anos de despesas com Saúde, Educação e Habitação. Programas assinados pelo PT como o Mais Médicos, incentivos a educação e Minha Casa Minha Vida estaria, portanto, em risco. A petista joga também com a proibição do saque imediato do FGTS e revisão da CLT como “retrocessos” do novo governo “ultraconservador”, além de submissão de direitos da população LGBT. “Respeitei o compromisso que assumi perante a nação e aos que me elegeram, me orgulho disso”, disse.

* Publicado no aplicativo EXAME Hoje da Revista EXAME – Editora Abril

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