Com dedicação e profissionalismo, casa paulistana se firma como principal reduto do punk rock e do hardcore brasileiro
Por Pedro Galvão e Raphael Martins
Em mais um sábado, o Hangar 110 abre as portas pontualmente às 19 horas. A fila da bilheteria do número 110, obviamente, da Rua Rodolfo Miranda, no bairro do Bom Retiro, estendia-se por mais de 100 metros. Naquela noite, uma a uma, as quatro bandas subiram ao palco para sua performance, mas quem movia aquela pequena multidão era a banda Strike, que se apresentava com a lotação de 640 pessoas quase esgotada. Antes da meia-noite, a casa que se consolidou como principal reduto da música underground brasileira já se encontrava vazia, prestes a fechar.
Criado para oferecer aos músicos e ao público um local autêntico, profissional e de fácil acesso para shows de rock, o Hangar 110 ganhou fama nos anos 2000 por receber grandes nomes da cena punk e alternativa brasileira e internacional – tal qual havia feito o CBGB, o clube de rock nova-iorquino mais cultuado dos anos 1970, e que revelou para o mundo bandas como Ramones, Patti Smith e Blondie (a casa do East Village fechou as portas em 2006 e o espaço hoje abriga uma loja de roupas). Já o Hangar serviu de palco para o surgimento de bandas nacionais, caso de NXZero e CPM 22. Esta última, curiosamente, foi a primeira banda a tocar naquele palco, em outubro de 1998. “Foi graças ao Donald, do Gritando H.C. Ele queria lançar a gente e acabou chamando para abrir para eles num lugar novo, chamado Hangar”, conta Badauí, vocalista do grupo. “Os Imperfeitos de Santos que eram os primeiros acabaram atrasando. Invertemos a ordem e eles foram os primeiros”, lembra Marco Antônio Badin, dono da casa. Os 400 metros quadrados do espaço já receberam outros nomes de peso, como New York Dolls, Jello Biafra (ex-vocalista do Dead Kennedys), Cockney Rejects, Toy Dolls, The Vibrators, Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Discharge e G.B.H. Até Marky Ramone já se apresentou por lá, conforme atestam os pôsteres pregados na parede atrás do balcão do bar.
Se o CBGB chegou ao apogeu (e também ao ocaso) nas mãos de seu dono, o americano Hilly Kristal, o Hangar só se tornou referência no cenário musical graças ao trabalho de Badin, conhecido no meio como Alemão, e sua esposa, Cilmara. A paixão do proprietário do Hangar pelo mundo underground aconteceu, como tantos outros adolescentes no fim dos anos 1970, por meio de uma fita cassete com músicas de ícones punks, como o próprio Ramones, além de The Jam e U.K. Subs. Sob o ritmo dos acordes acelerados, o jovem Alemão passou a frequentar shows e conhecer gente ativa na cena paulistana. Chegou a ter uma banda chamada Anarcoólatras, que acabou em 1981. Longe dos palcos, afastou-se também da cena pelo resto dos anos 1980. “Começou a acontecer muita coisa errada no movimento punk com a entrada de gente que não queria saber de música, só de violência e briga de gangue”, diz. Nos anos que se seguiram, usou sua formação em desenho industrial para trabalhar em uma gráfica.
Só em 1997, Alemão voltou a pensar em música. “Encontrei uma cena totalmente diferente da que eu tinha deixado. Eram inúmeras bandas, todo mundo lançava CD. Lá atrás era vinil e quase ninguém podia lançar um”, diz. “Fui na loja de um amigo, o Fábio, que toca no Olho Seco, e ele me mostrou uma parede inteira repleta de discos de bandas brasileiras, todas sem ter um lugar para tocar. Aí veio o estalo.” Entre as exigências para montar a casa, Alemão procurou salões por toda a cidade que fossem perto do metrô. A ideia é que os shows sempre terminassem até as 23h30 para que todos pudessem voltar para casa de transporte público. O salão escolhido fica a 200 metros da estação Armênia e a pontualidade no término é tão marca registrada que clientes reclamam se o último acorde passa do horário. As reformas foram todas feitas por Cilmara e ele, desde fiações, pintura e até montagem do palco de 2 metros de altura. Talvez tenha sido isso que faltou ao dono do CBGB, que dizia não ligar para dinheiro, tampouco para a limpeza e manutenção do local, conhecidíssimo por seus banheiros imundos.
O SUCESSO
Pari passu à lendária casa de Nova York, que exigia que os músicos apresentassem repertório próprio, o Hangar sempre prezou pelo trabalho autêntico e autoral. “Temos só duas noites de cover aqui, uma de Ramones e outra de Clash, que é pra molecada que nunca viu tomar gosto pelo punk rock. Se não tiver autoral, a gente não abre a casa”, explica Alemão. O som de primeira, bons equipamentos comprados pouco a pouco e o profissionalismo na produção compõem a fórmula de sucesso do Hangar. Sem descaracterizar a atmosfera underground, o compromisso do Hangar em ser um excelente espaço para shows se tornou o grande diferencial do lugar. “Ali tem um respeito maior com as bandas, é um lugar de show, não uma casa noturna. Todo mundo se conhece. Em outros lugares a coisa é mais impessoal”, crava o guitarrista Jão, do Ratos de Porão, um dos primeiros ícones do punk nacional a virar presença constante na casa. Outras lendas como Olho Seco e Cólera também viraram quase “sócios”. “Nem sei quantas vezes toquei lá, mas me sinto sempre em casa”, conta Jão.
Chuck Hipólitho, ex-guitarrista do Forgotten Boys e atual Vespas Mandarinas concorda: “É um lugar importante porque abrigou uma cena aqui no Brasil e se mantém de um jeito superprofissional, todo mundo sabe que eles trabalham em horários decentes e com boa estrutura”. Os elogios das bandas por vezes surpreendem Alemão, sempre restrito ao lado de dentro da casa. “O Rodolfo do Raimundos veio com o Rodox e falou que era uma prazer tocar aqui, que sempre ouviu falar da casa e, porra, Raimundos era uma puta banda, quando eu abri. Os caras faziam show em estádio”, afirma ele. “O Hangar foi o primeiro lugar de São Paulo que tocamos, em 2003. Queríamos muito que acontecesse, seria nossa grande consagração. Lá em Porto Alegre imaginávamos aquilo, enxergávamos como um templo”, conta Lucas, vocalista do Fresno. No mercado fonográfico, o produtor musical Rick Bonadio é um dos que destaca o potencial da casa como celeiro de novas bandas. “Comecei a ir lá em 2001, fiz amizade com o Alemão e ele sempre chama para ver alguém despontando nessa cena do Hangar”, diz. “Sempre que dá, faço shows de bandas minhas e coloco uma nova para abrir como teste. É a única casa com potencial comercial, que revela artistas, para mim.” Entre os achados de Bonadio por lá estão CPM 22, NXZero e Hateen, por exemplo.
Como nos anos finais do CBGB, que fechou as portas depois de um longo embate jurídico por questões imobiliárias, o Hangar já viveu dias melhores. Alemão notou uma mudança de comportamento nos últimos anos que pode pôr em xeque a filosofia de seu espaço: um lugar para ver bons shows e conhecer novas bandas. “A cultura mudou. Antigamente, você botava quatro bandas pra tocar, os cara vinham e a galera esperava a última pra conhecer. Hoje, a primeira toca, a galera vai embora, a segunda toca, a galera vai embora… não tem uma troca de informação”, diz ele. “Estamos em uma época de entressafra horrível. É uma questão de cultura, né? Hoje em dia, a ideia da molecada é montar uma banda só para fazer sucesso na internet e na televisão”, desabafa. Perguntado sobre os planos para o futuro, Alemão responde com tranquilidade: “Vamos seguir pelo menos até o 20º ano, depois não sei. Temos mais três anos aí pra decidir o que fazer da vida”. Pelo bem do underground, que o Hangar não siga o destino de sua “matriz” nova-iorquina.
* Publicado na edição 1 da Revista Elástica, projeto do Curso Abril de Jornalismo – Editora Abril
