Pensadores do Vale do Silício fazem brainstorm em avião
“Inovadores” usaram 10 horas de voo até Londres para criar ideias que incrementem estudos sobre ciência, tecnologia, engenharia e matemática
Por Raphael Martins

Foram 130 inovadores divididos em quatro equipes. Cada uma recebeu um desafio para aumentar o interesse da população em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Foto: Divulgação / British Airways)
“Conversa + colaboração = mudança”. Essa é a equação que define o DNA Summit (Decide Now Act), congresso criado no ano passado, em Londres, com um único objetivo: reunir as grandes mentes da atualidade em um espaço de discussão sobre problemas mundiais. A partir daí, visam criar as condições para que as ideias saiam do papel e tornem-se projetos sociais.
Novamente na capital do Reino Unido, a última edição do Summit trouxe gestores, engenheiros, programadores e todo o tipo de pensadores para as mesas. O evento contou com a presença de especialistas e ativistas britânicos e um grupo de 130 ‘inovadores’ dos EUA, mais precisamente da região do Vale do Silício, conhecida por ser um polo tecnológico norte-americano e casa de grandes empresas do setor, como Google, Intel e Facebook.
Esse grupo do lado de cá do Atlântico foi escolhido a dedo pela companhia aérea londrina British Airways, como parte de seu projeto Ungrounded. A empresa selecionou quatro equipes, que reunem de CEOs a programadores, dispostas a pensar em novos projetos na temática do Summit para levar ao máximo a produção de ideias inovadoras.
O palco desse grande brainstorm foi um Boing 747 da empresa, durante as 10 horas de voo que separam a Califórnia de Londres. O resultado final foram 24 projetos focados em incentivar desde a participação de mulheres em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês), até o crescimento dessa área em países emergentes. “Esse grupo de inovadores são movidos pela criação. Nós garantimos que a experiência tivesse todo o necessário para favorecer esse ambiente”, disse o vice presidente de Marketing da B.A., John McDonald à GALILEU.
Os projetos campeões em cada uma das quatro categorias foram apresentados no DNA Summit e receberão verbas e patrocínios para serem levados adiante. Segundo McDonald, foi através de várias reuniões que se chegou no modelo do Ungrounded. “Uma das maiores reclamações deles são as interrupções de brainstorms ou compromissos que atrasam o processo”, disse. “Em um avião você não pode sair, não vai usar smartphones, ajuda a manter o foco e, além disso, você tem um deadline muito específico, o momento do pouso”.

Cada equipe recebeu moletons coloridos para identificar o grupo (Foto: Divulgação / British Airways)
De passagem pelo Brasil, McDonald concedeu uma entrevista exclusiva contando o “Raio X” da ideia de se fazer um brainstorm dentro do avião, por que sua empresa está tão dedicada em apoiar o mercado de inovação e se há planos de fazer novas edições do Ungrounded. Confira:
GALILEU: Como o Ungrounded nasceu? Por que a British Airways se envolveu em um projeto como esse, tão fora de seu mercado óbvio?
John Mc Donald: No mercado americano, na Costa Oeste em específico, há um setor que concentra líderes em tecnologia. Vimos uma grande oportunidade de nos engajarmos nesse meio. Pensando em marketing e como podemos expandir nossa marca nos EUA, nós identificamos esse grupo como um mercado chave, já que nossos planos futuros contam com essa parceria para aprimorar nosso serviço para o consumidor.
O que ficou muito claro para nós é que a nossa imagem dentro desse nicho precisava ser mais refinada. Entramos em contato com parceiros do DNA Summit e do ITU (International Telecommunication Union) da ONU (Organização das Nações Unidas) e pensamos em como reunir essas pessoas e dar o suporte para que elas tocassem projetos pelos quais eles fossem apaixonados. Foi assim que o Ungrounded nasceu, dessa ideia de se engajar com a comunidade inovadora do Vale do Silício em um tópico que fosse importante para eles: expandir a inovação global. A partir daí que surgiu a ideia de criar um laboratório no ar. 130 pensadores, juntos, para encontrar soluções para problemas globais.
Qual a vantagem de um brainstorm no avião?
John Mc Donald: Uma das maiores reclamações deles são as interrupções de brainstorms ou compromissos que atrasam o processo. Em um avião você não pode sair, não vai usar smartphones, o que ajuda a manter o foco e, além disso, você tem um deadline muito específico, o momento do pouso. A junção de um deadline apertado e o ambiente do avião que te mantem concentrado na colaboração de forma muito intensa era uma situação inédita para todos.
Esse grupo de inovadores é movido pela criação. E nós garantimos que a experiência tivesse a estrutura necessária para fazer isso. Para se ter noção, um dos times fez toda a codificação do site do projeto durante o voo e, assim que pousamos, a página foi colocada no ar. Quando chegamos, eles tinham tudo pronto: apresentação, conceito, site, páginas em redes sociais, tudo. Quando esse grupo foi para a cama, mandamos o link para nossos parceiros na ONU. Eles gravaram uma mensagem de resposta dizendo basicamente ‘nós adoramos essa ideia e queremos levá-la adiante’. Era esse o objetivo de tudo: fazer dessas ideias projetos reais.

As dez horas de voo resultaram em 24 projetos diferentes na temática do DNA Summit (Foto: Divulgação / British Airways)
Como foi a seleção dos inovadores que embarcaram?
John Mc Donald: Os 130 foram selecionados para o voo, porque nós queríamos a mistura perfeita de talentos. A ideia não era ter apenas CEOs de grandes empresas. Buscamos gestores, programadores, desenvolvedores, engenheiros… A química entre as equipes tinha que funcionar. Não são pessoas que iriam a Londres de qualquer forma, foi o projeto que as motivou a embarcar. Foi esse conceito de ter um espaço de criação nessa área de STEM e, ao final da viagem, ter um congresso para discutir essas ideias de inovação global com pessoas de outras partes do mundo.
Qual o papel da empresa além de simplesmente fornecer um avião?
John Mc Donald: Acho que o nosso suporte ao todo pode se dividir em duas áreas: primeiro manter um contato próximo com essa comunidade de inovadores, em um intercâmbio de tecnologias – nosso chefe de inovação participou do Ungrounded -, e ,segundo, impulsionar grupos que estão levando adiante projetos relevantes. Num futuro ainda colaboraremos com esses grupos para ajudá-los a tocar suas criações da forma que pudermos, seja com voos para deslocamento ou qualquer outra coisa que estiver a nosso alcance.
Qual o maior legado que o Ungrounded deixa para a B.A.?
John Mc Donald: Vimos, durante o Ungrounded, a vantagem de fazer parcerias com startups. Era algo que não conseguíamos ver claramente antes. Trabalhar com elas acelera a capacidade de desenvolvimento, inovação e nos ajudou a entender e reconhecer que nos dias de hoje é possível que grandes empresas achem soluções simples com esse trabalho colaborativo. Acho que isso nos mostrou um pouco do futuro da inovação corporativa.
Há planos para fazer uma nova edição?
John Mc Donald: Estamos muito ansiosos para o que deve vir adiante, pois vimos o entusiasmo de todos nessa edição. Faremos mais atividades com o selo do Ungrounded. Usaremos a experiência no nosso programa de inovação que tenta caminhar para o futuro da viagem aérea e para o consumidor. Por exemplo, lançamos há pouco um programa que reúne em um aplicativo dados dos nossos clientes, como as preferências pessoais, histórico de voos, entre outros, para que possamos entregar um serviço personalizado. Tudo para melhorar a experiência dos passageiros.
Acha possível fazer algo parecido no Brasil?
John Mc Donald: O mercado no Brasil avançou muito nesse quesito, mas ainda não posso dizer que está num patamar de investimento em parceria com startups ou algo como o Ungrounded. Israel, Londres, Berlim e outros mercados, que entrariam em um top 5, estão à frente, mas a base de consumidores aqui é muito forte. O consumo cresceu muito, principalmente de internet, redes sociais e videos, então é essa nossa oportunidade, de trabalhar com o país no seu ponto forte: promover e testar nossa inovação em mobile e recursos online.
* Publicado no site da Revista Galileu – Editora Globo