Hospital do Câncer de Barretos faz campanha por voos comerciais para a cidade
Projeto Voo Contra o Câncer quer reduzir o tempo de viagem e aumentar a acessibilidade de pacientes e pesquisadores que dependem do hospital
Por Raphael Martins
Geraldo Pereira tem 53 anos e é de Coxim, no Mato Grosso do Sul. Seu Natal do ano passado ficou marcado por uma notícia triste: o diagnóstico de câncer no estômago. Logo depois da biópsia, realizada na capital Campo Grande, o caso foi encaminhado para o Hospital do Câncer de Barretos, interior de São Paulo.
A unidade é o maior e mais moderno hospital oncológico do país, com 4 mil atendimentos por dia, 100% via SUS. Os 900 quilômetros (por rodovias) que separam Coxim de Barretos levam 16 horas para serem percorridos de ônibus, fora qualquer parada adicional. O mesmo trajeto em voo direto para o aeroporto de Barretos reduziria o tempo total de viagem em, pelo menos, 10 horas – 3 horas de carro até a capital, uma hora de voo até Barretos, mais intervalo para check-in e possíveis atrasos. “Nunca andei de avião, então o problema é o medo, né? Mas ia ser uma maravilha ter voos para cá”, disse o paciente.
É claro que o caso de Seu Geraldo está longe de ser o único. Pacientes dos 27 estados do Brasil vão ao Hospital do Câncer de Barretos procurando atendimento especializado para tratamento oncológico. Por isso, o próprio hospital lançou a campanha “Voo Contra o Câncer”, que pede a abertura do aeroporto de Barretos para linhas aéreas comerciais. São horas e horas na estrada que poderiam ser reduzidas em até dois terços se feitas de avião.
Além de facilitar a vida de seus pacientes, o projeto tiraria da cidade uma velha sombra da dificuldade de acesso. O Hospital do Câncer é, também, um dos mais conceituados no estudo da medicina avançada. Por semana, são de 30 a 40 médicos do mundo todo que passam por lá para treinamento – 70% deles são da América Latina, 30% da Europa e EUA. Mas todos levam, além do tempo do voo, mais uma hora para chegar de carro ao aeroporto mais próximo, em São José do Rio Preto. Saindo de Ribeirão Preto, somam-se mais 30 minutos. “Barretos perde muito recurso para cidades vizinhas que tenham um aeroporto com estrutura”, conta Henrique Prata, diretor geral do Hospital do Câncer.
Desde o fim de 2012, o aeroporto passou a ser concessão da prefeitura da cidade, que trabalha para adequá-lo aos padrões necessários para receber qualquer tipo de voo. “A situação era meio precária, faltam balizamentos, melhorias de estrutura para receber passageiros, a pista precisa ser recapeada. Nada disso impede a utilização de linhas comercias, mas estamos terminando os estudos para definirmos qual o formato de gestão”, conta Domingos Sávio Baston, Secretário de Desenvolvimento Econômico de Barretos.
Atualmente, a prefeitura tenta decidir em que área o aeroporto vai atuar: com linhas aéreas de passageiros comerciais, linhas de cargas ou como ponto de manutenção de aeronaves. “O projeto Voo Contra o Câncer aconteceu numa hora muito propícia. Já entramos em contato com companhias para verificarmos a viabilidade, fazermos levantamento da demanda já existente para São José do Rio Preto e vermos quantos deles tem destino final em Barretos”, disse o secretário.
Pelos estudos da prefeitura, essa demanda giraria em torno de 7 mil passageiros por ano. “Um voo diário de São Paulo para Barretos precisaria de, pelo menos, 30 viajantes por dia, que faria do número que temos insuficiente. Mas há uma demanda latente. Já existem também cerca de 70 mil passageiros por ano que fazem o trajeto de ônibus; se conquistássemos 10% desses, já seriam mais 7 mil por ano para o avião”, afirma Sávio Baston. “Ônibus, ida e volta para a capital, custa cerca de R$ 180, o avião giraria em torno de R$ 280. É totalmente possível! Esses números já atraem uma companhia aérea. Basta ela trabalhar para conseguir mais passageiros”.
“Rondônia é um dos estados que mais traz gente: antes da filial, instalada em 2012, levava média de 2,3 mil pacientes por mês a Barretos. Os quase 2 mil quilômetros são vencidos em 50% dos casos de carro e ônibus e 50% de avião. Então há, sim, uma demanda”, reforça Henrique Prata.
O diretor geral do Hospital teme apenas que o preço das passagens dificulte o transporte dos pacientes. Segundo ele, cerca de 70% dos pacientes não contam com qualquer incentivo público para o deslocamento até a sede do Hospital. “Boa parte deles acaba arrecadando um dinheirinho através de ajudas coletivas de parentes e igrejas”, conta ele. “O ideal é que houvesse suporte do SUS em todos os casos”.
Mas se for o caso de o paciente ter de arrumar um jeito de pagar pela passagem, Marcelo Couto, assessor de imprensa da GOL Linhas Aéreas, aponta que é possível fazer os preços caírem se houver apoio do governo: “Nossa maior batalha sempre foi o preço do combustível, que representa 43% do custo da viagem. Reduzindo a carga de impostos nesse sentido, é possível baratear a passagem. A ABEAR (Associação Brasileira de Empresas Aéreas) já conseguiu redução para voos de Brasília, poderia acontecer o mesmo com Barretos”.
Nesse caso, fica a pergunta: o que falta para que esses voos se tornem regulares e facilitem o acesso de todos à cidade?
O lado das companhias
A repercussão do projeto nas mídias sociais atingiu seu primeiro objetivo, que era cutucar as empresas para uma demanda de voos já existente. Todas elas já abriram os olhos e, agora, estudam o que fazer.
Marcelo Couto conta que tanto a GOL como qualquer companhia analisa esse tipo de possibilidade de acordo com a frota que tem e se há a possibilidade de deslocar voos para destinos que se pode voar. “O aeroporto tem de cumprir determinadas exigências de segurança para que possa receber os aviões. Barretos, por exemplo, ainda não está adequado em relação a combate a incêndio. Se isso é impeditivo legal para operar, o aeroporto pode cuidar disso e tudo se resolve. A pista suficiente, por exemplo, já existe”, disse.
Ele conta que a GOL precisa identificar dentro da malha aérea de onde sairiam os voos dos pacientes e qual a melhor forma de levar para Barretos. “Conforme coletarmos esses dados é possível fazermos estudos para verificar a real viabilidade”, disse. “Ainda não posso afirmar que será possível deslocar voos num futuro próximo, pois estamos em um processo de identificação da oportunidade. Há rentabilidade e viabilidade? Se sim, ok. Uma atitude positiva nessa campanha é bom tanto para os pacientes como para a imagem da GOL”, diz o assessor.
Também consultada, a TAM Linhas Aéreas se restringiu a dizer que “está sempre atenta às necessidades dos clientes para iniciar ou ampliar operações, tanto domésticas quanto internacionais. Novos voos são constantemente avaliados pela companhia conforme a demanda de cada cidade ou região. No momento, não há planos de operar voos para a cidade de Barretos”.
* Publicado no site da Revista Galileu – Editora Globo
