Ele não é só memória

Por Paulo Fávari e Raphael Martins

Em um quarto de século de carreira, Paulo Vinicius Coelho, o PVC, já passou por ao menos uma dezena de veículos de imprensa. Começou, ainda na faculdade, como freelancer do jornal Diálogo e do Jornal de São Bernardo. Formado, foi funcionário do Diário do Grande ABC, Ação, Placar, Lance! e Folha de S. Paulo.

Alto, meio desengonçado e dono de uma das memórias mais eficientes do jornalismo esportivo brasileiro, o jornalista prima pela informação correta. E para ele, informação ideal é aquela pura e simples, sem juízo de valor. Entre outros assuntos, nesta entrevista PVC fala, sob o ponto de vista jornalístico, sobre a crise no Palmeiras, o massacre de reputação da Era Dunga e comenta a imprensa esportiva brasileira.

Atualmente, PVC é multimidiático. É colunista do jornal O Estado de S. Paulo, comentarista do canal por assinatura ESPN e da rádio Estadão ESPN, além de assinar um blog no site da emissora e seu Twitter pessoal, o @pvcespn. Aliás, por falar em Twitter…

*****

Paulo – O seu Twitter é o @pvcespn sem o underline.

PVC – Sem o underline (risos).

Paulo – Você ficou meio puto com o Twitter…

PVC – Com o Twitter eu não fiquei puto, eu fiquei puto quando ele [o autor da conta] publica coisas que podem ser confundidas com informação. Meu trabalho é dar informação, se ele dá informação que quer confundir, como já aconteceu, aí eu não gosto. Porque os caras vão achar que eu dei a informação errada.

Quando a sacanagem é sacanagem pura e simples, tudo bem. Eu passei a ter Twitter porque um dia eu estava no Rio, eu era colunista da Folha e me liga o Fábio Seixas da Folha dizendo assim “PVC, é verdade mesmo? O Muricy fechou com o Palmeiras?”, na semana em que o Muricy tinha recusado o Palmeiras, “como está no seu Twitter?”, ele falou. Eu falei “Seixas, eu não tenho Twitter”. Por isso que eu comecei a ter Twitter, porque começava a circular informação como se eu tivesse dado. E aí vai lá o @pvc_espn e aconteceu umas duas vezes. Ele acha que está de sacanagem, mas ele põe um negócio que pode ser confundido com informação. Teve um dia que ele tinha falado que o Carrefour tinha comprado o Corinthians. Ligaram aqui na redação para perguntar pra mim se era verdade. Esse é o problema.

Paulo – Para você qual é a principal falha na imprensa esportiva?

PVC – Eu acho que hoje em dia a gente está deduzindo muito e apurando menos do que deve. Não vou dizer “apurando pouco”. Apura-se bastante, tem muita coisa correta. Mas às vezes a gente parece se comportar em relação às pessoas que militam no futebol como num filme, como se fosse uma coisa fora da realidade. Falta você transferir o que acontece no dia a dia para o dia a dia das pessoas. Briga-se num ambiente de trabalho e no dia seguinte está tudo bem. Mas o maior problema não é esse, a tua pergunta foi qual a maior falha. A minha impressão é que a gente está cometendo erros demais. Erros de informação.

Por exemplo, “O Dorival Júnior é o novo técnico do São Paulo e se apresenta na segunda-feira”. Isso foi notícia dada por rádio. “Ricardo Gomes não será o técnico do São Paulo” na segunda partida da Libertadores, em 2010, contra o Internacional. “O Dunga já acertou”. O Ricardo Gomes dirigiu o São Paulo contra o Internacional e o Dunga nunca foi técnico do São Paulo.

Agora mesmo, o Roberto Frizzo não vai ser mais vice-presidente de futebol do Palmeiras. Está todo mundo esperando ele cair há duas semanas e não cai. Esse cuidado eu acho que está faltando um pouco. A gente está dando muito notícia como coisa definida e depois fica com cara de otário.

Raphael – E por que você acha que isso acontece? É por preguiça ou pra chamar atenção para o seu veículo?

PVC – Eu acho que é pressa. Eu acho que não é nem preguiça, nem querer fazer sensacionalismo. Não é sensacionalismo. Um pouco é a tentativa de ter notícia. Especialmente hoje, que a internet te dá munição a cada minuto, tem muito mais valor uma história bem contada (ou deve ter mais valor uma história bem contada), do que uma história exclusiva e falsa.

Outro caso: o Nilmar. Chegou a se dizer que o Nilmar estava fechado com o São Paulo. É provável que ele feche. Se você diz “São Paulo negocia com o Nilmar e pode ter o jogador no Campeonato Paulista”, a notícia está certinha. Mas você tem a pressa de dar a notícia exclusiva. Aí você diz “Nimar fechou com o São Paulo”: não serve para nada.

Raphael – Se acertou você fala que deu primeiro.

PVC – Pois é, mas se você errou ninguém lembra? Não pode ser assim. Eu acho que esse, hoje, é o nosso maior pecado: é a pressa.

Paulo – E também não tem a questão de que o primeiro veículo dá, depois todos dão e todo mundo erra junto?

PVC – Sim, tem um pouco disso, que é o medo do furo.

Paulo – Mas, por exemplo, se a ESPN espera para dar a notícia e dá depois, de uma certa forma ela vai ser criticada porque deu depois, não vão ver que ela apurou melhor.

PVC – Ela não vai ser criticada. Isso acontece muito pelo medo do furo, medo de você estar levando um furo. Você tem medo de que o cara esteja certo, publica junto e no fundo acaba errando junto; isso acontece muito. Acontece também de você se proteger do furo, o furo do cara estar certo, você dar a informação junto com ele e a informação estar certa; também acontece isso.

Eu acho que um ponto importante, hoje, é: qual é o valor da notícia exclusiva? No fundo, a notícia exclusiva tem um valor muito relativo – ela sempre teve, mas hoje tem mais. Pelo seguinte: você acorda de manhã, liga o rádio e ouve que, por exemplo, a Dilma falou sobre Direitos Humanos em Cuba. Digamos que essa fosse uma notícia exclusiva da Folha de S. Paulo. Você acorda e ouve falar sobre a Dilma em Cuba. Depois, abre a porta do seu apartamento, pega o jornal e vê na capa da Folha. Para você, você não precisa saber se a notícia é da rádio Jovem Pan ou da Folha de S. Paulo, talvez você tenha ouvido antes na rádio Jovem Pan. E eu estou falando de um cenário que é de 1980. Se você transferir isso para hoje, hoje eu fui na padaria, comprei dois jornais (eu recebo jornais em casa só de sexta a segunda) comprei a Folha e o Estadão, voltei pra casa com o pão, liguei o computador e entrei na rádio. Ou seja, eu trabalhei com três mídias diferentes de manhã.

De onde vem qual notícia, na cabeça do leitor isso se confunde. O que está acontecendo muito, no entanto, é que o barulho está chamando a atenção então você fala assim “o Neto deu que o Nilmar fechou”. Depois não se cobra isso. Mas no fundo ninguém sabe de quem é a notícia. Quer mais um motivo para se apostar mais na notícia bem apurada do que na notícia exclusiva e com pressa? Se a notícia for exclusiva e for certa, ótimo! Agora, se é uma barriga, aí eu acho que o jornalismo tem que ser cobrado pela barriga, dando informação errada.

Raphael – Agora que você falou do Neto eu lembrei de um caso assim. O Neto costuma falar que uma fonte dele (não sabe-se de onde veio) deu que o Beckham está vindo para o Corinthians e aí ele fala o programa inteiro que o Beckham está vindo para o Corinthians. No outro dia não se fala mais nisso, Beckham não veio para o Corinthians e fica por isso. Eu não sei se isso é parte de ética, por parte do jornalismo, de publicar uma coisa estratosférica que não tem nada a ver, que todo mundo esquece porque deu uma audiência num dia.

PVC – O Neto não é jornalista, mas é um caso específico de que ele precisa ser preparado para trabalhar como jornalista, para ter ética de jornalista, para ser cobrado como jornalista. Notícia errada é notícia errada e pronto. O jornalista não dá notícia errada cinco vezes seguidas e está tudo bem. Ele não pode ter o bônus do jornalista e não ter o ônus, ele tem que ter o bônus e o ônus.

No fundo, também, não sei até que ponto essa rapidez da informação não está cobrando uma coisa que é fundamental que se cobre. A matéria-prima do jornalista, especialmente do jornalista de opinião, é credibilidade. Você vai acertar e vai errar – eu acho que eu tenho acertado mais do que errado, erro também, mas em questão de informação eu tenho acertado muito mais do que errado, para a minha felicidade. Se eu errar, eu vou corrigir, eu vou voltar e falar “eu disse isso e aconteceu aquilo” porque eu tenho noção de que a minha matéria-prima é a credibilidade.

Eu não vou dar opinião (e a minha opinião ser levada a sério) se você olhar pra mim e dizer assim “olha lá mais uma pataquada que aquele cara está falando”. O público cobra isso mas há diversos tipos de público. Tem o público que presta atenção e tem o público que a informação passa diluída. Talvez essa diluição esteja fazendo com que no jornalismo esportivo, mais do que em outras áreas, o jornalista e quem trabalha com informação esteja sendo menos cobrado do que deveria sobre essa questão fundamental, a credibilidade que ele deve ter.

Paulo – Neste domingo (29/01), a ombudsman da Folha escreveu criticando o caderno de esportes da Folha porque no começo da Copa São Paulo de futebol júnior foi falado que o Andrés Sanchez tinha abandonado a base do Corinthians. Assim foi até o dia da final e o Corinthians acabou ganhando. Depois o jornal acabou rasgando elogios para o time. Como você vê isso?

PVC – Eu não li a ombudsman neste final de semana mas tem duas coisas pra medir aí. Uma é que a Folha não rasgou elogios ao time. Nenhum colunista em nenhuma matéria da Folha rasgou elogios ao time.

Paulo – Ela fala que foi depois que o Corinthians ganhou.

PVC – Mas não rasgou elogios. A Folha não rasgou elogios, a Folha tratou como a matéria do campeão. A matéria, objetivamente, é o fato do campeão, ela não falou que essa é uma geração maravilhosa e promissora e que o Douglas vai ser o substituto do Adriano. Esse é um aspecto: tem uma avaliação da ombudsman que também não está sendo muito precisa, embora ela tenha razão em um aspecto. Falou-se mesmo, inclusive o Andrés Sanchez [presidente licenciado do Corinthians e atual diretor de seleções da CBF] admitiu publicamente, que o problema dele foi o sucateamento das divisões de base. Todo mundo falou isso, inclusive o presidente do Corinthians.

Há uma coisa que passou batido nos últimos meses. Passou batido por todo mundo e inclusive por mim, que é a maneira como o Corinthians passou a tentar recuperar o tempo perdido com uma parceria com o Sonda [Grupo de Tecnologia da Informação que assinou parceria com o Corinthians em novembro de 2011. A parceria vai até 2014]. Por exemplo, o Douglas, do Guarani, foi contratado em abril do ano passado. A base do Corinthians continuou sucateada e sem campo para treinar, mas alguns jogadores a Sonda começou a colocar no Corinthians. Uma parceria que a Sonda teve com o Santos, depois teve com o Palmeiras e agora tem com o Corinthians. Essa matéria não se fez. Essa matéria explica, em parte pelo menos, porque o Corinthians sucateou a divisão de base e montou um time competitivo para recuperar o tempo perdido e ganhar a Copa São Paulo.

Outro aspecto. Ganhar a Copa São Paulo não significa ter um trabalho bem feito na base. O trabalho bem feito na base você vai medir a médio prazo. O Corinthians, em 2009, foi campeão da Copa São Paulo e não tem ninguém no time de cima. O time de 2009 tinha Boquita, que foi pra Portuguesa, tinha Jadson, que foi para o interior, tinha uma série de jogadores e nenhum foi para o time de cima. Nenhum. O Boquita passou pelo time de cima. O time de 2004/2005, que foi bicampeão, colocou Coelho, Rosinei, Bruno Octávio e Júlio César no time de cima. Desse ponto de vista, o trabalho de 2003, 2004 e 2005 é melhor do que o trabalho recente. E a medida que a gente vai ter de fato é 1) quem do time de 2012 vai chegar ao time de cima? (é uma procura de dois, três anos) e 2) quando chegar ao time de cima, quem foi formado pelo Corinthians e quem veio de outro clube? Por exemplo, o Douglas foi formado no Guarani. A Sonda comprou e colocou no Corinthians.

No fundo, ninguém está contando a história completa, talvez nem eu aqui. Mas acho que faltou essa matéria. Essa matéria passou batido. Mas a ombudsman também não está levando em conta que uma das pessoas que disseram que a base do Corinthians estava sucateada foi o presidente do Corinthians.

Paulo – Alguns palmeirenses reclamam que a Folha é tendenciosa para o lado do São Paulo. O Palmeiras está atravessando uma crise, mas há a crítica de que a Folha aumenta mais essa crise no Palmeiras pelas manchetes que coloca. Acontece isso mesmo?

PVC – Eu acho que tem uma relação dos palmeirenses que o Belluzzo [Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras] explica como um complexo de colônia, que é típico dos palmeirenses – e eu faço parte desse grupo também. A torcida do Palmeiras é a única que vai para o estádio e grita “alho, alho, alho, imprensa do caralho”. Então tem um certo complexo de inferioridade.

O que acontece com o Palmeiras – e acho que tem falha da imprensa na cobertura do Palmeiras sim – é que lá bebe-se demais da fonte da oposição; e a oposição mente muito. Pela facilidade em ter notícia bombástica que vem da oposição e por uma dificuldade que a gente tem de acreditar no que é falado por quem está no governo, checa-se mal com a direção. Lança-se muita história que vem da oposição e ponto. Isso é um erro. Isso não é um problema da Folha, isso é um problema de todos os lugares na cobertura do Palmeiras. Eu acho que tem, de fato, isso.

Mas tem um complexo de palmeirense. Eu vou dar um exemplo recente: um telespectador nosso, leitor do blog, chamado Eduardo Moura, que mora no Rio, que é um cara que se aprofunda em números de economia do futebol, mandou um e-mail pra mim há dois dias, com base numa nota que saiu no Uol falando sobre a dívida do Palmeiras. Ele disse “saiu uma nota aqui falando que a dívida do Palmeiras já está em 270 milhões”, que é um absurdo, que tem uma porção de dívidas de curto prazo. E eu estou bem informado sobre a dívida do Palmeiras. Respondi para ele dizendo “a dívida do Palmeiras não é de 270 milhões, é de 170 milhões no balanço”.

O Belluzzo diz que a dívida é de 90 milhões e ele explica porque. Tem 30 milhões que no balanço foi depreciado em função da demolição do Palestra Itália e tiraram do patrimônio, o que é relativo porque vão subir dois prédios agora e você põe mais 20 milhões no lugar. O estádio vai subir e você põe também mais 50 milhões. Outra coisa é que 24 milhões de luvas de contrato de televisão (luvas são receita) entraram no balanço como adiantamento, e adiantamento é contabilizado como despesa. Por que? Porque é um dinheiro que você tinha para receber e você pediu um empréstimo. Até chegar o dia do pagamento real isso é dívida, quando entrar passa a ser receita. Como você colocou como despesa, como dívida, você contabilizou 24 milhões como dívida e não como receita, o que deveria ser contabilizado porque não era adiantamento, eram luvas. São 48 milhões. 48 milhões mais 30 milhões são 78 milhões. Tira 78 de 170 que está no balanço, são os 90 que o Belluzzo está dizendo.

Então a dívida do Palmeiras não é tão caótica assim porque o Palmeiras recebe 80 milhões de reais por ano da televisão e acabou de fechar ontem (31/01) um contrato de 25 milhões de reais por ano de patrocínio [com a Kia Motors]. Só de duas das receitas do Palmeiras, sem contar bilheteria, sem contar mais nada, o Palmeiras recebe 105 milhões de reais por ano. E deve 90 milhões, ou 170. Ainda que sejam 170, não é desesperador.

Ele respondeu assim “eu vi no balancete que a dívida é 270”. Eu falei “balancete ou balanço? Você viu o balanço?”, antes eu tinha mandado pra ele um link como balanço no site da Federação Paulista. Ele falou “vi o balanço, a dívida já superou os 250 milhões”. Eu passei a mão no telefone e liguei para o financeiro do Palmeiras, o cara que é meu vizinho até. “Fabiano, o Palmeiras publicou o balanço desse ano já no final do ano passado?”, “Já, já publicou. Espera aí, me dá cinco minutos que eu te ligo de volta” e desligou o telefone. Ligou de volta “o Palmeiras não publicou o balanço porque o prazo para publicar é dia 30 de abril”. Eu mandei para ele [Eduardo] “confirmado: o Palmeiras não publicou o balanço. Os números do último balanço publicado são de 170 milhões, veja no site da Federação Paulista”, foi o balanço publicado em abril do ano passado. Terminei dizendo assim “no Palmeiras, ou é oficial ou é mentira”. Porque a oposição está mentindo muito. Não quer dizer que seja tudo mentira, mas as chances de ser mentira são enormes.

Acho que falta sim a checagem, falta fazer fulano diz isso e a diretoria diz aquilo porque fica nessa sede de dizer que está tudo errado. E é uma sede alimentada pela diretoria porque a diretoria assumiu, ano passado, vetando as contas do Belluzzo. O Palmeiras tem essa mania. Uma das coisas que precisa mudar no Palmeiras é que o Tirone [Arnaldo Tirone, presidente do Palmeiras] diz “o Belluzzo fez aquilo”, o Belluzzo diz “o Mustafá [Contursi, ex-presidente do Palmeiras] fez aquilo outro”. Quem fez foi o Palmeiras, não foi o Belluzzo, o Tirone ou o Mustafá. Quem fez foi o Palmeiras. O Palmeiras foi o responsável pelo que saiu. Precisa parar de ser o grupeiro a, b ou c. Inclusive a diretoria publica informação esquisita para ferrar o outro.

Na terça-feira da semana passada (24/01), o Mustafá foi ao COF [Conselho de Orientação e Fiscalização], que ele controla, para vetar as contas do Tirone (vetou-se as contas do Belluzzo inúmeras vezes e sai “contas foram rejeitadas”). Na quinta-feira (26/01), o COF levou para o conselho deliberativo para vetar as contas. O COF aprovou por 141 a 38 – foi um massacre no Mustafá. Essa notícia não saiu em lugar nenhum.

Raphael – Você acha que esse poder da mídia de oposição é fundamental para a imagem do time?

PVC – Eu acho que atrapalha, eu acho que atrapalha ter um pouco de paz. Mas por outro lado, eu até brinquei ontem (31/01) falando do caso do Daniel Carvalho. Anteontem (30/01) os caras chegavam no Parque Antártica assim “o Kléber não está mais aqui, o Frizzo deu uma sumida… um dia sem crise!”. Aí o Daniel Carvalho deu uma entrevista e falou que tinha tomado anabolizante na Rússia. Ninguém perguntou para ele “Daniel, você tomou anabolizante para estar assim gordinho?”. Ninguém perguntou isso pra ele, ele saiu falando.

Raphael – Por exemplo, o caso do Adriano. A torcida já estava impaciente com aquela coisa do Adriano não tomar jeito; a imprensa fala que o Adriano está gordo e não vai voltar; o Andrés Sanchez declara que foi um erro contratar. A coisa vai virando uma bola de neve e o cara entra num exílio porque ninguém mais quer o cara. É a mesma coisa do Felipe Melo quando ele…

PVC – Brigou comigo (risos).

Raphael – Também. Ou quando ele chutou o Sneijder no chão, acabou com a Copa e virou a imagem do volante revoltado que ninguém mais quer. Como que esses casos de imprensa não fazem essa contraposição e exilam o cara?

PVC – Eu acho que tem uma mistura de coisas aí. Por exemplo, o caso do Felipe Melo eu acho que tem um massacre mais público do que da imprensa. Ele foi convocado, foi para a Copa do Mundo, a gente estava falando que estava jogando bem. Eu três ou quatro vezes falei que estava jogando bem. O primeiro tempo dele contra a Holanda estava excepcional, jogou muito, meteu a bola no gol. Aí ele deu um bico no cara e foi expulso. Aí você vem com uma opinião. Opinião, se você ficar batendo todo dia que o cara é um lixo, é massacre, está errado. Mas não foi isso que aconteceu com o Felipe Melo. O que aconteceu como Felipe Melo foi que na sequência a torcida se virou contra ele.
O Dunga é um exemplo pior, nesse aspecto. A história da Era Dunga ter virado um massacre, ter virado um símbolo de falta de talento, isso foi mais massacrante. Não foi uma coisa sistemática de dizer que o Dunga era o cabeça de bagre, mas quando você começa a dizer “na Era Dunga” e fica repetindo, vira um massacre. Eu estou falando da época dele como jogador. Ele saiu da Copa do Mundo e ficou três anos fora da seleção.

Paulo – Ele já era meio arisco na época…

PVC – Ele sempre foi arisco, mas ele ficou mais arisco depois disso. Eu acho que o caso da Era Dunga é mais um símbolo disso que você está dizendo do que o que aconteceu com o Felipe Melo ou com o Adriano. De fato, isso não foi uma opinião, não foi uma coisa consciente da imprensa. Foi uma coisa que se espalhou. Virou uma coisa meio viral, para usar o termo da moda hoje. Viral. Não tinha Twitter mas era isso. O Jornal do Brasil deu um título com “A Era Dunga”, a Era Dunga virou símbolo de falta de qualidade, se espalhou por todos os jornais e virou a Era Dunga.

Raphael – Mas no caso do Adriano e do Ronaldo gordinho também, não? Porque todo mundo dá uma alfinetada. Em programa esportivo, estão na mesa redonda e dizem “o Ronaldo está aparecendo na camisa, com a barriga”.

PVC – Mas é o que vem da rua. O “Ronaldo gordinho” é o que vem mais da rua, do cara que vê que ele está gordo do que o contrário. É diferente, eu acho. E o Ronaldo estava gordo mesmo.

Raphael – Do Adílson também, você acha? Ele passou por três dos grandes de São Paulo e acabou…

PVC – Mas ele fracassou nos três.

Raphael – Mas a imprensa não influencia também na imagem dele?

PVC – Bom, o São Paulo contratou depois de dois fracassos. No terceiro fracasso você vai fazer o que? Eu adoro o Adílson, volta e meia falo com o Adílson, mas vai fazer o que? Ele fez três trabalhos que não emplacaram. Por inúmeros fatores. Se quando for contratar ficar com aquela coisa de acabar com esse time, aí é diferente. De tudo o que a gente falou, eu acho que o melhor exemplo é o da Era Dunga. Ele se espalha de um jeito que fica incontrolável.

O Ronaldo gordo vem da rua. É difícil dizer se vem da imprensa para a rua ou se vem da rua para a imprensa porque o Ronaldo está gordo, ele estava gordo. E quando ele estava jogando bem, ninguém falou que não estava jogando bem porque estava gordo.

Aí a gente já está entrando em questões que são misturadas. Uma coisa é opinião, outra coisa é informação. Erro de informação é um aspecto. No caso do Palmeiras, por exemplo, tem muito erro de informação. O Frizzo está caindo há três semanas. Eu tenho a impressão de que o Frizzo não vai cair. Ele vai ficar no limbo mas não vai sair do cargo. Por enquanto foi isso que aconteceu.

Raphael – E isso cria uma intriga enorme no time. No caso do Luxemburgo e do Ronaldinho, se fosse resolver aquilo internamente no Flamengo, seria muito mais fácil de resolver, eu acho, do que jogando na mídia.

PVC – Mas quem jogou foi o Vanderlei.

Raphael – Mas faltou o senso dele.

PVC – Faltou. E o ingrediente de ele estar caindo é esse. Já tem um desgaste, já tem a história da Patrícia Amorim [presidente do Flamengo] dar um cala a boca e ele responder que não gostou do cala a boca. Isso foi tudo público, foi um bate-boca público. Tem um desgaste de ele ter discutido os poderes do Flamengo lá atrás em outubro, novembro. Agora, no começo desse ano teve a história do cala a boca.

A Patrícia disse “eu acho que as pessoas, no Flamengo, têm que calar a boca e trabalhar”. Aí vem o Vanderlei vem na coletiva seguinte e diz que não gostou do cala a boca. Na sequência vem a história de vazar o caso Ronaldinho em Londrina. Estava todo mundo em Londrina, ninguém viu o caso do Ronaldinho. Quem vazou o caso do Ronaldinho foi o Vanderlei. Aí a diretoria ficou mais alucinada. Por que? Segundo gente da diretoria, tinha jogador do elenco que não sabia o que tinha acontecido em Londrina. Ou seja, quem pode ter vazado? Só o Vanderlei.

O Flamengo tem essa coisa de que todo mundo sabe quem fala com quem. Lá, todo mundo sabe que a minha fonte é o Luiz Augusto Veloso [ex-presidente do Flamengo] e que a fonte da Marluci [Martins, repórter do jornal Extra] é o Vanderlei. Como foi a Marluci que publicou, quem vazou foi o Vanderlei (risos). Não adianta, tem coisa que vaza porque vaza, a notícia está certa.

O Vanderlei foi pedir a cabeça do Ronaldinho e os caras disseram para ele “a punição que você está pedindo é desproporcional à falta que ele cometeu” e ele ficou puto e vazou.

Raphael – O caso de discussão pública eu acho que não é muito influência do cara que reporta isso, mas o jornalista colocando isso exposto coloca a paixão do torcedor…

PVC – O papel do jornalista é dar informação. Se a informação está certa, não tem o que discutir. Se vai causar problema, se o cara vai ficar arriscado, se o cara pode ser agredido, isso não é problema do jornalista. O problema do jornalista é publicar informação certa. Se a informação foi publicada, está certa e não tem juízo de valor, informação pura e simples… [tudo bem]. Você publicar um texto de opinião, repleto de juízo de valor, dizendo que o cara é um irresponsável, aí já é diferente.

Eu estou dizendo do caso do Vanderlei é que foi informação pura e simples: o Ronaldinho foi visto num andar que não era para ele estar, onde estava hospedada uma hóspede com quem ele ficou (a matéria nem falava isso), o Vanderlei pediu o afastamento do Ronaldinho e a diretoria disse não. A matéria era essa, a matéria está certa. Todas as informações que estavam na matéria estão corretas.

Paulo – Mudando um pouco de assunto, vai ter a Olimpíada de Londres e a Record comprou os direitos. A Record e a Globo ficam numa briguinha para ver quem vai transmitir, quem não vai – mas isso não só nos esportes, em qualquer área. Mas como isso prejudica a transmissão dos jogos para o espectador?

PVC – O que está acontecendo com relação à Record é que ela está regateando muita credencial porque como ela é dona dos direitos, está segurando muitas credenciais de outras emissoras que também compraram os direitos.

Em relação ao evento, o evento é vendido. A Record teve cacife para comprar, comprou. Ela vai fazer a cobertura o melhor que puder fazer. As emissoras que não compraram vão fazer a cobertura da maneira que puderem fazer. É Olimpíada, não é Jogos Abertos do Interior. Então, quem não comprou tem a obrigação de dar notícia também. E é isso que eu acho que às vezes falta. Se a Record não tinha os jogos de 2008, ela tinha que dar a notícia. Se a Globo não tem os jogos de 2012, ela tem que dar a notícia. O que não pode se misturar é o interesse do negócio no interesse jornalístico, o interesse jornalístico está acima disso. “César Cielo ganhou medalha de ouro nos 50 metros e vai competir nos 100 metros hoje a noite”. Se isso vai levar audiência para o seu concorrente [não importa], a notícia está em primeiro lugar.

Paulo – Mas a Globo não prejudica o trabalho de outras emissoras principalmente na parte esportiva?

PVC – A discussão que existe, na verdade, é qual é o limite da compra dos seus direitos de transmissão. Por exemplo, ela não prejudica ninguém quando ela compra os direitos do Campeonato Brasileiro com exclusividade. Se ela comprou, ela vai mostrar. A questão é o que ela comprou. Por exemplo, muitas vezes a gente tem problema para montar o equipamento para fazer o link nas entrevistas coletivas depois do jogo. Aqui já é uma linha mais tênue, já é mais difícil de definir quem está certo e quem está errado.

Em vários eventos no mundo, o cara que que é televisão e não comprou os direitos não entra no estádio com câmera. E é isso que eles se batem. Eles deixam montar o link mas não deixam a câmera entrar, então você não consegue montar o link. Por outro lado, às vezes fica a impressão pra mim de que se está dizendo que não pode fazer o jornalismo. O jornalismo a gente pode. Eles não podem cercear o direito de ir às entrevistas coletivas e fazer jornalismo, de entrevistar todo mundo e botar no ar – eventualmente ao vivo.

Como é que eles cerceiam esse direito? Não deixando a câmera entrar, que é a área mais escura dessa história. Pode entrar com a câmera ou não pode entrar com a câmera? Pode entrar com a câmera, o que não pode é gravar o jogo. Mas gravar as entrevistas pode. O jogo é um produto e esse produto ela comprou. Se ela comprou com exclusividade, é um contrato que ela conseguiu fazer. Se ninguém mais conseguiu comprar, é o contrato que foi possível para as outras emissoras. Se tem tráfico de influências, se a maneira como se comprou foi promíscua, é uma outra coisa e aí você tem que averiguar. Agora, ela comprou os direitos do jogo. O jogo é o produto e o produto é dela. Ok. O jornalismo não é dela, exclusivo. A minha pendenga só é essa.

Paulo – Bloqueia o jornalismo só quando não deixa entrar…

PVC – Tem bloqueado menos. Bloqueia o link ao vivo mas não bloqueia que você faça as entrevistas. Ela bloqueia a montagem do link. E essa área é, de fato, obscura.

Paulo – Mas para as outras emissoras é prejudicial porque a fonte primária de informação do consumidor médio é a televisão.

PVC – Mas o jornalismo você pode fazer. Ninguém te proíbe de entrar no vestiário e gravar as entrevistas. O que ela te proíbe é de fazer isso ao vivo. Pode te proibir [de entrevistar]? Não pode. O que ela pode fazer? Proibir a câmera de entrar na hora que você está montando o link porque tem uma engenharia anterior a fazer o ao vivo.

Outra coisa é o que aconteceu no ano passado, da negociação com o Clube dos 13. Você tinha uma negociação que ia correr risco, aí a CBF, junto com ela [Globo], fez um jogo político para quebrar os clubes e negociar separado. Ela conseguiu fazer isso, ela agiu fortemente no aspecto político. Ela não fez nada ilegal. Fez um lobby político que conseguiu quebrar a unidade dos clubes.

Paulo – Você fala que jornalista não pode ser celebridade. Por que?

PVC – Eu não falei nem celebridade, eu falei notícia.

Paulo – Nas entrevistas que eu li você disse o jornalista quando começa a ficar famoso, começa a querer se aparecer mais.

PVC – Eu acho que o papel do jornalista é dar informação, o jornalista não é para ser notícia. Às vezes o bichinho da vaidade morde e você começa a achar que é normal ser entrevistado aqui, ali e acolá, e não é. Jornalista não é para ser entrevistado, é para entrevistar; jornalista não é para ser notícia, é para dar notícia; a opinião do jornalista não é para ser notícia, ela é só uma opinião – quando ele é um jornalista de opinião

A opinião que vale qual é, a do jornalista político ou a do presidente da república ou do ministro da Fazenda? O ministro da Fazenda deu uma opinião e o jornalista vai analisar. Ele fala “esse plano econômico que ele disse não funciona no aspecto que ele falou porque historicamente acontece isso aqui, isso aqui e isso aqui”. Pode ter uma relevância [a opinião do jornalista], mas a manchete não é essa. A manchete é o plano econômico, não é a opinião do analista de que o plano econômico é ruim. É esse o ponto. O analista é apoio, a informação é fundamental. É isso o que eu acho. Mas não quer dizer que a Fátima Bernardes não possa ser capa da Caras, quer dizer que a função dela não é essa. É esse o ponto na minha opinião.

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