O acúmulo de compromissos preenche horários livres, adia o lazer e a vida social, dando a impressão de que o tempo passa cada vez mais rápido
Por Raphael Martins
O ano passou rápido? Não dá para cumprir todas as obrigações dentro dos prazos? O dia parece cada vez mais curto? Por que não se tem mais tempo para nada?
O estilo de vida atarefada e a dificuldade de conciliar compromissos profissionais com relações sociais dão uma nítida impressão de que o tempo voa. Dentre os principais motivos para que isso aconteça está o aumento de tarefas e obrigações que as pessoas se envolvem nos dias de hoje. Cria-se, assim, uma sensação pessoal de que há cada vez menos tempo para si. Florival Scheroki, doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo e psicólogo clínico, explica: “Há realmente essa impressão de que o tempo se acelerou. Na realidade, é uma percepção que as pessoas têm que não cabe, no tempo disponível, tudo aquilo que elas têm que fazer”.
O psicólogo complementa: “Isso tudo acontece pelo estilo de vida que temos hoje. Uma mãe de família sai às 7 horas da manhã para deixar as crianças na escola. Se sai às 7h15, ela não cumpre o horário de entrada no trabalho, às 8 horas. Parece que não temos mais intervalos”.
Maria Helena Oliva Augusto, professora do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, concorda: “É como se o ritmo do tempo se acelerasse. Na verdade, a percepção temporal muda por conta dos inúmeros compromissos que estão presentes no cotidiano, que fazem não se dar conta de perceber o tempo de maneira mais tranquila”.
Sobre o assunto, Luiz Silveira Menna-Barreto, professor especializado em cronobiologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades coloca que, na sociedade contemporânea, as cobranças são cada vez mais intensas e frequentes, o que produz uma sensação crônica de falta de tempo. As demandas exigem que as pessoas tenham inúmeras habilidades e qualificações acadêmicas, tomando boa parte do tempo que poderia ser destinado ao lazer. Scheroki completa: “Por que hoje é assim e antes não era? Hoje temos várias tarefas que não tínhamos. Temos que saber inglês, francês, jogar tênis, trabalhar… As pessoas tentam alocar dentro do tempo mais ações do que cabem nele”.
Para Maria Helena, isso vem se tornando uma maneira de viver no mundo de hoje: “Em todas as situações, você acaba sendo apressado. Essa aceleração do ritmo temporal se manifesta nas nossas ações mesmo que elas, aparentemente, não tenham a ver com o tempo, como dar passagem no trânsito, por exemplo”.

A socióloga destaca ainda um outro ponto comum entre todos os pesquisadores dessa temática: a frequência em que as pessoas assumem mais compromissos do que podem, criando uma sobrecarga de tarefas. “É importante se manter nos próprios limites, não os ultrapassar com os compromissos que assume. Isso dificilmente acontece e daí surgem as tensões, estresses e preocupações com a falta de tempo”, explica.
Como consequência desse acúmulo, em muitas situações é necessária uma espécie de seleção de prioridades. Maria Helena cita o sociólogo alemão Georg Simmel para explicar que a variabilidade de estímulos que recebemos é imensa, por isso promovemos essa seleção, para não enlouquecer. Escolhe-se entre o que é imprescindível fazer no momento e o que se pode adiar.
Criando-se esse jogo de escolhas, as pessoas tentam manejar, da melhor forma possível, os seus inúmeros compromissos. Entretanto, quando o acúmulo é muito grande, é normal que a memória não funcione corretamente [link para matéria de memória] e os esquecimentos aconteçam. O professor Menna-Barreto explica: “Memória, atenção, concentração são bastante prejudicadas, resultado de um desajuste entre diferentes funções do organismo. Imagine o organismo como uma orquestra: mesmo que cada instrumento funcione perfeitamente, sem ajustes na sequência, a sinfonia fica prejudicada”. De maneira geral, quando há uma sobrecarga de funções, as atividades psicológicas sofrem certo prejuízo.
A professora Maria Helena destaca: “A percepção de aceleração do tempo é uma coisa angustiante. É possível se dar conta disso pela quantidade de pessoas ansiosas, depressivas e estressadas que se encontra. Elas percebem o tempo passando rapidamente e, por isso, tem pressa de viver intensamente. Isso acaba criando situações de tensão muito grandes”.
Além do nosso sistema nervoso, o constante acúmulo de compromissos causa problemas a outros aspectos da saúde. Menna-Barreto ressalta que pessoas sobrecarregadas ou com jornadas duplas, por exemplo, têm privação de sono, que acaba desencadeando diversos distúrbios como transtornos de humor, problemas na digestão e alterações cardiovasculares.
Falando em um viés mais humanitário, Scheroki destaca que nem todos percebem o prejuízo disso nas relações pessoais: “Alguns de nós nos tornamos, de certa forma, resistentes a esses atropelos da vida, mas alguns não aguentam. Quem sente mais o prejuízo é, por exemplo, quem tem família e, portanto, menos tempo para passar com eles ou quem sente falta de um tempo para o lazer. Em suma, o principal prejuízo é que quando se tem muitas atividades, elas acabam sendo realizadas com uma qualidade inferior ou acabam deixando de existir”.
O psicólogo acredita que os principais prejuízos de uma vida atarefada é sentido nas relações com amigos ou familiares. Na hora de escolher entre uma obrigação profissional ou uma interação social, as pessoas acabam priorizando o trabalho: “Nós somos nossas relações sociais, nós acontecemos a partir delas. Se elas acabam sendo comprometidas, comprometem toda a nossa vida. A vida é composta pelas nossas ações no tempo e cada vez menos a gente tem autonomia sobre ela”.
Para o professor Menna-Barreto, o ideal é buscar alternativas de trabalho ou estudo em horários mais compatíveis com uma vida saudável. “Exercício físico, relações sociais e familiares ricas e alimentação saudável também ajudam, mas a raiz do problema reside no trabalho excessivo”, completa.
Tentando pensar em como mudar esse panorama, Maria Helena afirma: “A questão é sempre de escolhas. Não sei se tem a ver com driblar a situação [de sobrecarga de atividades], talvez a possibilidade seria a tentativa de realmente viver o presente”. Para a professora, as pessoas, normalmente, vivem em função do futuro. Baseando-se no passado ou se planejando para o futuro, o presente acaba passando sem se perceber. “A possibilidade de perceber esse fluxo de uma maneira menos conturbada tem a ver com essa tentativa de se manter no presente. Não no sentido de ser irresponsável com seus compromissos, mas estar presente no que está fazendo, pela dedicação a um momento posterior”, finaliza.
* Publicado na edição de janeiro/fevereiro de 2012 da Revista Espaço Aberto – USP

