O poder do fotojornalismo na representação de fatos

Por Raphael Martins

Assim como o texto jornalístico, a fotografia pode ser uma grande arma para o jornalista. Apesar de seu caráter estático, a foto tem um poder descritivo maior que qualquer texto. É um elemento que expressa observação do ponto de vista do fotógrafo, é uma análise e opinião trazidas por ele.

Essa é, inclusive, a função do fotojornalista: passar, através da imagem, uma informação relevante e que desperte a atenção do público. O profissional deve ser capaz de captar a essência da história em um clique, deve contar o caso com uma única foto. De acordo com o seu critério de seleção (tirar ou não a foto, o que fotografar). Pode-se até dizer que a mensagem de uma foto deve ser auto-explicativa, para que a legenda apenas complemente o que se espera.

Homem representa, sozinho, o repúdio da população chinesa contra o exército

“O Rebelde Desconhecido” é o nome dado à foto, que mostra um anônimo que se tornou internacionalmente conhecido ao ser fotografado em frente a uma linha de tanques durante a revolta da Praça de Tiananmen (também conhecida como Praça da Paz Celestial), em 5 de junho de 1989, na China. A foto foi tirada por Jeff Widener, e na mesma noite foi capa de centenas de jornais, noticiários e revistas de todo mundo. Esse corajoso gesto mostra a vontade real de vários chineses na época. Conta uma história sem dizer uma palavra.

Apesar de toda essa característica “auto-suficiente” que as imagens jornalísticas idealmente têm, não se encontram, nas bancas, veículos comunicativos compostos somente por fotografias. Tradicionalmente, no jornalísmo, as imagens são utilizadas como complemento da informação presente no texto. Entretanto, a fotografia tem uma função maior, atrativa para a informação passada, para a estética do jornal e até criar percepções do leitor, que ele não teria com o texto. Em “O Rebelde Desconhecido”, essas várias funções são atendidas. Além de contar a história por um viés impressionante (a coragem de um rebelde entrar na frente de tanques do exército), a foto chama atenção de quem talvez não lesse a matéria sobre o assunto e dá um descrição perfeita do caso e o que ele representa.

A foto cria essas percepções pela aproximação do leitor com a cena descrita. Através de uma descrição textual, o leitor é capaz de imaginar a situação e montá-la em sua imaginação. Com a foto, a proximidade do leitor com o caso relatado é muito maior, pois ele pode ver o que e como aconteceu. Nesse relato de casos imediatos e inesperados que se aplica o conceito de “momento decisivo” de Henri-Cartier Bresson.

Considerado por muitos como o melhor fotojornalista da história, Bresson definia desta forma o instante anterior à definição do fato. É o caso de um goleiro defendendo um penalti, um policial rendendo um bandido ou um acidente fotografado logo antes de acontecer. A imagem dá toda a contextualização necessária para que o leitor entenda o que está acontecendo.

É nisso que o fotojornalismo se diferencia da fotografia artística. Apesar de ambos buscarem despertar a atenção e trazer uma história sintetizada na imagem, a imagem fotojornalística busca informar. Por isso, o fotojornalísta deve ter a capacidade de avaliar as situações e pensar na melhor forma de representá-las, grande parte das vezes, sem o mínimo conhecimento prévio do que enfrentará. Essa é a maior dificuldade do fotojornalista, trazer a história da melhor forma possível, mesmo sem conhecer perfeitamente o assunto tratado. Deve ter sensibilidade, capacidade de avaliar o que acontece ao seu redor e pensar na melhor forma de retratar os acontecimentos.

* Produzido em maio de 2011

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